Um mês após o regresso a casa, Tatiana, Filipe e Soraia retomaram a rotina habitual que tinham antes de serem levados para o Centro de Acolhimento Temporário (CAT) de Praia do Ribatejo, concelho de Vila Nova da Barquinha, onde estiveram institucionalizados durante um ano e nove meses. Tatiana estuda no sexto ano na Escola Básica 2,3 de Salvaterra de Magos e Filipe frequenta o terceiro ano do primeiro ciclo. Soraia vai para a creche em Setembro, estando em casa com a mãe.
O MIRANTE assistiu a uma aula de Shorinji Kempo – actividade desportiva praticada por Tatiana e Filipe – e pôde comprovar como as crianças se adaptaram bem ao regresso a Foros de Salvaterra. Tatiana e Filipe chegam ao local de treino, no pavilhão junto ao Centro de Saúde de Foros de Salvaterra, acompanhados pelo professor Nuno Monteiro, que, na carrinha da Associação de Shorinji Kempo do concelho de Salvaterra de Magos, vai buscar as crianças que não têm quem os leve aos treinos. Nessa tarde Marília Batista e a filha mais nova, Soraia, assistiram ao treino.
Assim que entra na sala, Tatiana é recebida efusivamente pela amiga Madalena que não estava à espera de a encontrar naquele dia. Abraçam-se e põem a conversa em dia. Filipe entra mais tímido, mas logo começa a brincar com dois colegas da sua idade. Até o professor dar indicação do início da aula reina a confusão. Todos querem conversar e brincar.
O professor garante que a readaptação dos filhos mais velhos de Marília Batista ao contacto com os antigos colegas e amigos foi fácil e feita de forma natural. “A maioria das crianças e jovens já os conhecia porque frequentavam as aulas de Shorinji Kempo antes de eles irem para o CAT. Os que não lidaram com eles tinham conhecimento do que se estava a passar e receberam-nos muito bem”, conta Nuno Monteiro.
Na opinião do professor, Tatiana ultrapassou bem um episódio marcante na sua vida, mas foi Filipe quem mais sofreu e terá ficado com maiores traumas pela separação forçada da família. “A revolta do Filipe é o reflexo da experiência dolorosa que teve e a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) e a Segurança Social não pensaram quando agiram da forma como agiram quando os vieram buscar”, salienta Nuno Monteiro.
Marília Batista confirma que o filho tem demonstrado muita rebeldia mas garante que o desporto tem sido uma óptima solução. “As aulas de Shorinji Kempo fazem-lhe muito bem porque obriga-o a ter regras que tem que cumprir e gasta toda a sua energia no treino. O que, mesmo parecendo que não tem qualquer efeito, diminui a sua revolta interior”, explica a mãe.
Tatiana, Filipe e Soraia foram retirados aos pais a 20 de Junho de 2008 pela CPCJ de Salvaterra de Magos que alegava que a casa onde as crianças viviam com os pais não tinha condições de higiene e habitabilidade.
